11 de jul de 2015

Tratado da verdadeira devoção a Santíssima Virgem



Conferência pronunciada em maio de 1973


(extratos – texto sem revisão do autor)

A ESCRAVIDÃO A NOSSA SENHORA É A SUPREMA LIBERDADE

Prof. Plínio Corrêa de Oliveira

Hoje em dia, quando se fala da escravidão de amor a Nossa Senhora, há uma estranheza muito grande, porque a escravidão é a própria ideia de vergonha, e não se
compreende o que faz a escravidão na devoção a Nossa Senhora. O que quer dizer escravidão de amor à Nossa Senhora? No que consiste a
escravidão de amor à Nossa Senhora? A escravidão, ainda que seja à Nossa Senhora, é uma vergonha para um homem? A obediência, a dependência é uma vergonha para um homem?

O que é a escravidão de Amor?


São Luís Grignion (*) explica isto muito bem. A escravidão, entre os antigos, era imposta. Os pais tinham o direito de vender seus filhos como escravos, e era imposta,
portanto, pelo pátrio poder. Era imposta pelos reis, que podiam vender seus súditos. Mas era sobretudo imposta pela guerra. Quando um país ganhava uma guerra contra outro, todos os súditos do país vencido passavam a ser escravos do país vencedor. Todo
vencido de guerra era escravo. São Luís Grignion diz bem que não é esta a escravidão de amor. Ela é um vínculo de dependência que nós aceitamos em relação a Nossa Senhora, porque amamos Nossa Senhora. Quer dizer, nós A queremos tanto, temos nEla tal confiança, que queremos fazer tudo quanto Ela quer, como um escravo quer fazer tudo que seu senhor quer. É uma dependência de amor. Não é imposta pelo despotismo, não é imposta pela força, é
imposta pelo amor. No que consiste isto? Consiste naquela união que Nosso Senhor já defendeu no Evangelho, quando falou dos apóstolos que não eram unidos a Ele. Ele disse: “Nem as vossas cogitações são as minhas cogitações, nem as vossas vias são as minhas”. Isto
quer dizer que quando as pessoas têm o mesmo pensamento, o mesmo querer e o mesmo agir, elas estão unidas. Sendo Nossa Senhora a Rainha do Céu e da Terra, se eu tiver todas as cogitações de Nossa Senhora, quiser tudo o que Nossa Senhora quer e fizer tudo quanto Ela quer que eu faça, estarei unido a Nossa Senhora. Se minha vida é um contínuo fazer assim, sou escravo de Nossa Senhora. Mas sou escravo de amor, porque resolvi fazer isso pelo amor que tenho a Ela. Ela tinha esse direito, e resolvi atender o direito dEla. É uma alta e transcendental união de alma, que por essa forma se exprime, e que dá, de fato, numa obediência: porque Ela pensa, eu penso; Ela quer, eu quero; Ela quer que eu faça, eu faço. Eu dependo dEla em tudo.

Obedecer não limita a liberdade


Como isso se dá em concreto? Se quero pensar como Nossa Senhora, devo pensar como a Igreja Católica; se quero querer o que Nossa Senhora quer, devo querer o que a doutrina da Igreja me ensina que devo querer; se quero fazer o que Nossa Senhora quer que eu faça, devo
fazer aquilo que o espírito católico me indica que faça. Por essa maneira, serei escravo de amor de Nossa Senhora. Trata-se de perguntar se é uma vergonha uma pessoa depender de tal maneira de Nossa Senhora. E, mais profundamente, se a obediência é uma vergonha, se a dependência é uma vergonha, se a doutrina liberal a respeito disso é verdadeira ou falsa.
Saindo daqui, tenho a possibilidade de ir passear de automóvel, inutilmente, para me distrair; de outro lado, tenho a possibilidade de ir para minha casa para descansar,
cumprindo meu dever. O indicado pelo mundo, hoje, seria fazer o agradável que está diante de mim. No caso, ir passear. O dever é considerado uma limitação de minha
liberdade, porque me obriga a fazer o que não gosto. Minha liberdade, portanto, consiste em fazer o maior número de atos que eu ache agradável, o maior número de atos que me atraiam. Em sentido contrário, a carga do dever limita minha liberdade. A este respeito, vamos ver o que nos diz a doutrina católica. Leão XIII expõe este
assunto numa encíclica muito bonita: “Libertas Præstantissimum”. Ele nos ensina exatamente o contrário. Para compreender bem essa doutrina, precisamos tomar fatos
que até se passam fora da ordem humana. Imaginem um bando de gaivotas à beira-mar, e que uma criança conseguisse segurar uma gaivota antes de ela levantar vôo. Dir-se-ia que, de algum modo, a criança tolheu a liberdade da gaivota. Por quê? Porque está no primeiro impulso natural da gaivota levantar vôo para comer peixes. Está de acordo com a ordem que Deus quis colocar nas coisas. Está, portanto, de acordo com essa ordem que a gaivota fique espairecendo, voando de um modo magnífico, e depois mergulhando para apanhar o peixe. Mas não é um direito, porque um animal não tem direitos, e a liberdade é um direito.
Imaginem que uma pessoa pudesse, com essas bombas super-modernas, dar um tiro num cometa e destruí-lo. Tem-se a impressão de que a liberdade do cometa teria
sido restringida, porque ele estava naquela trajetória bonita, natural, elegante, querida por Deus, e o caminho da ordem própria ao cometa foi interrompido por alguém. Um cometa não tem direitos, mas dir-se-ia que a liberdade do cometa foi interrompida.

A liberdade do homem consiste em praticar o bem


Leão XIII diz que assim é também a criatura humana. Há uma porção de verdades que o homem vê, e a sua própria natureza o faz desejá-las. O primeiro
movimento da alma humana diante do bem é seguir o bem. De maneira que o homem quer praticar o bem, como a gaivota quer dar o seu vôo. E a liberdade do homem
consiste em seguir esse movimento, como a liberdade da gaivota consiste em dar o seu
vôo inteiro. Mas vem algo que diminui no homem a possibilidade de praticar o bem: é a tentação, um peso que o leva para outro lado. Qual é o efeito próprio da tentação? Diz Leão XIII que é diminuir a liberdade do homem. Os homens seriam muito mais livres se não fossem tentados, a tentação é o contrário da liberdade. Não é o pecado, e sim a virtude que é a liberdade. O pecado é o contrário da liberdade. Nós seríamos muito mais livres, seríamos como a gaivota no ar, se não fôssemos tentados.
A verdadeira liberdade do homem – continua Leão XIII – não é fazer tudo que lhe passa pela cabeça, inclusive o mal, mas é seguir sempre o seu primeiro impulso bom,
sem admitir embaraços que venham tolher esse impulso. A verdadeira liberdade está no dever. Essa é a verdadeira noção de liberdade. Isso é muito verdadeiro, e contraria a noção liberal completamente. O liberalismo fica reduzido a frangalhos com esse conceito, que entretanto é evidente.
Outro exemplo. Um homem se encoleriza com outro. Vê que não deveria dizer ao outro uma palavra ríspida, porque é contra os interesses dele, e com isso vai perder,
digamos, um bom negócio. Qual é o homem verdadeiramente livre: o que, para fazer um bom negócio, se contém e não diz a palavra ríspida, ou aquele que diz a palavra
ríspida e perde o bom negócio? O primeiro é livre, o segundo é escravo. E daí vem a expressão corrente “escravo do vício”.
A verdadeira liberdade consiste em praticar o dever, e não há homem mais livre do que aquele que obedece às leis justas e obedece às autoridades justas. Esta é a primeira noção que devemos reter.

Minha liberdade consiste em procurar a verdade inteira

Uma segunda noção que Leão XIII desenvolve. Se me analiso a mim mesmo, vejo que posso encontrar muitas verdades, fazendo uso de minha inteligência. Mas percebo também que outros entendem melhor do que eu muitas outras verdades. E até, muitas vezes, outros menos inteligentes do que eu percebem melhor certas coisas. Deus
nos fez de tal maneira que cada um vê umas tantas coisas que nenhum outro vê, ou as vê com mais clareza. Chego então à seguinte conclusão: se outros vêem coisas que não sou capaz de ver, se minha liberdade consiste em ver a verdade inteira e em atender o meu apetite de verdade, deverei saber consultar aqueles que são mais capazes do que eu, para certas coisas, e seguir nessas coisas a opinião deles, de preferência à minha. Assim realizo o meu apetite de conhecer a verdade inteira. Daí o fato de se recorrer a técnicos, a especialistas, a pessoas que têm muita experiência da vida, a pessoas que têm muita elevação de pensamento. Porque eles são capazes de, em certas emergências, encontrar um caminho que nós, por nós mesmos, não encontraríamos. O homem que quer ser verdadeiramente livre, que quer levar à plenitude sua tendência para o bem, aceita ser controlado, aceita ser dirigido pelo mais capaz. Com isso dá uma prova magnífica de sua liberdade. Nós compreendemos por aí que o próprio de ser mandado ainda é a mais alta forma de liberdade. A coisa mais natural do mundo é que o homem verdadeiramente livre peça conselho, aceite ser influenciado para ser mais livre. Assim ele consegue realizar aquilo que ele quer, no fundo, que é conhecer
a verdade inteira. Há mais. Todo homem que não seja um orgulhoso debandado compreende que, quando se trata de julgar a si próprio, ele muitas vezes é parcial, e se julga benevolamente.

A suprema liberdade é a escravidão a Nossa Senhora

Daí decorre que a forma suprema da liberdade é aceitar-se a autoridade daqueles que nos ajudam a praticar a verdade e o bem, ou seja, a fazer aquilo que de fato
queremos. Não há, portanto, forma mais cristalina e mais sublime de liberdade do que sermos escravos de Nossa Senhora. É o auge da dignidade humana, porque é fazer, em tudo, aquilo para onde as nossas melhores apetências caminham. Qual é a conseqüência disso para nós, quando formos nos consagrar a Nossa Senhora? É levarmos um espírito amoroso de autoridade, isto é, compreendendo a função da autoridade, compreendendo a função da obediência e compreendendo que, fazendo-nos tão pequenos diante dEla, fazemos uma coisa sublime, uma coisa altamente dignificante. Não devemos nunca nos envergonharmos de obedecer, de seguir um outro, porque exatamente aí está a mais alta dignidade do homem.

A eupopeia se forma na obediência

Alguém dirá: “E aqueles guerreiros medievais tão combativos, os pares de Carlos Magno, aqueles homens tremendamente varonis? Eram também assim?”
Precisamente isso é que forma o homem capaz de uma epopéia. Quando o homem tem uma vontade tão firme, ele diz: “A verdade, eu a quero até o fim, custe o que custar; o bem, eu o quero até o fim, custe o que custar. Então vou esforçar-me de todos os modos para conhecer a verdade, para conhecer o bem. Mas, conhecendo minha falibilidade, vou fazer essa renúncia de resolver tudo pela minha cabeça, mas consultarei o ensinamento da Igreja Católica, que vale mais do que minha cabeça. Portanto, quero ter uma certeza do que penso por ser o que a Igreja pensa, o que é certeza muito maior do que tenho naquilo que penso por mim mesmo, porque uma Igreja divina e infalível me ensinou”.
É por isso que há essa frase na Escritura, que se aplica a Nossa Senhora: “Tibi servire regnare est” – Ser teu servo é ser rei. Ser escravo de Nossa Senhora é ser rei.
Portanto, devemos consagrar-nos a Ela, não como quem se envergonha, mas como quem se honra. A nossa ufania é de sabermos obedecer, por um ato de suprema força
de vontade. Termino com um fato muito bonito, que Montalembert narra na introdução do livro sobre Santa Isabel da Hungria. Ele conta que um xeque árabe, que havia sido aprisionado pelos cruzados, estava passeando pela França, e olhava aquelas catedrais magníficas. Em uma delas, provavelmente de uma abadia, ele perguntou: “Quem é que construiu?”. Mostraram-lhe uns irmãos leigos rezando. Desconcertado, ele perguntou: “Como é que homens tão humildes podem construir monumentos tão altivos?” Acho isso uma beleza. Os grandes atos de altivez da vida são das almas que conhecem a glória de obedecer. A obediência não é o contrário da valentia e da varonilidade, ela é a flor da valentia e da varonilidade.

7 de jul de 2015

A mulher será salva pela maternidade

“A mulher será salva pela maternidade.” - 1Tm 2,15

Em 1Tm 2,15 São Paulo afirma que a mulher é salva pela teknogonia. Esta palavra grega pode traduzir-se por geração de(os) filhos ou, simplesmente, maternidade. Neste caso, o Apóstolo tem em vista a maternidade como colaboração com a obra do Criador: é, de certo modo, um sacerdócio, visto que toda mãe é chamada a transmitir não somente a vida corporal e a educação respectiva, mas também a doutrina da fé, que estrutura o cristão. Ser mãe era uma das aspirações mais profundas da mulher judia; é também grande dignidade da mulher moderna, dada a importância que uma boa mãe tem na sociedade.

Eis, porém, que o vocábulo grego pode ser traduzido também por geração do filho, designando então um filho definido. Este seria o Filho de Deus feito homem no seio de Maria Virgem. Em tal caso, São Paulo estaria dizendo que a mulher é honrada e glorificada pela maternidade de Maria Virgem, que deu à luz o Filho por excelência ou o próprio Salvador. Tal interpretação não deixa de ter sua verossimilhança: Maria seria apontada como a mulher por excelência, cujo parto proporcionou ao mundo a fonte da Vida plena. Vem a propósito recordá-lo no mês de maio, especialmente dedicado pela piedade católica a Maria SS.; para ela os cristãos, configurados a Cristo, lançam seu olhar filial e confiante, pedindo-lhe as valiosas preces, a fim de que “possam fazer tudo o que Jesus mandou” (Jo 2,5).

Os dizeres de São Paulo interpelam também as outras mães, que têm seu dia oficial no segundo domingo de maio. O Apóstolo insinua que toda mãe cristã há de se espelhar na Mãe Santíssima e procurar fazer de seu filho um outro Jesus; é certamente esta uma das mais belas tarefas que a mulher possa desempenhar, ciente de que os ensinamentos entregues pela mãe às suas crianças são sementes que não morrem, mas marcam profundamente a personalidade dos filhos. Os sacrifícios que toda mãe deve praticar para ser fiel à sua vocação, vem a ser, de resto, imagem muito frequente, na Bíblia, da tarefa de formar o Cristo nos corações dos cristãos. O próprio Jesus se refere às dores do parto como figura do que acontece aos cristãos que querem formar o Cristão em si, em meio às contradições do mundo:

“Chorareis e vos lamentareis, mas o mundo se alegrará. Vós vos entristecereis, mas a vossa tristeza se transformará em alegria. Quando a mulher está para dar à luz, entristece-se porque a sua hora chegou; quando, porém, dá à luz a criança, ela já não se lembra dos sofrimentos, pela alegria de ter vindo ao mundo um homem” (Jo 16,20s).





Pe. Estêvão Bettencourt, OSB